domingo, abril 16, 2006

 

Como recebi os "inputs" da educação intercultural

Quando na avaliação final do processo de formação intensiva, no fim do segundo seminário, alguns colegas mencionaram que “não sabiam o que lhes tinha acontecido” e só o iriam saber já com alguma distância do processo, não valorizei a expressão. Agora sei que me aconteceram algumas coisas muito significativas. Uma das mais conscientes foi ter despertado para a cooperação internacional:
-Descobri que havia quem dedicasse anos da sua vida na cooperação com países em África, em experiências muito intensas, plenas de sentido;
-Descobri que algumas congregações de cariz religioso permitiam a quem passava por essas experiências um desenvolvimento pessoal e de uma atitude de dádiva, uma abertura e formação pessoal com a qual eu poderia ter a aprender;
O que me aconteceu foi despertar para a dimensão de cidadania que representa uma tal experiência. Independentemente de a conseguir vir a realizar, acordei para essa realidade. No fundo, percebi que daqui só sou aquilo que a minha cultura me permite ser. Uma experiência como essa dá-nos a oportunidade de “mergulhar” noutra cultura, sair de nós e do conforto das posições que construímos ao longo do tempo para conseguir ver as coisas com outros olhos.

Deixo-vos uma mensagem de uma das pessoas que me trouxe mais referências neste assunto e a quem recorri a pedir conselhos:

"(...) O mais importante é a atitude em que te colocas e perceberes bem as motivações e aí podes ser útil em qualquer lugar.
A verdadeira humanidade consegue-se precisamente na capacidade que todos temos em perspectivar formas diferentes de estar e de ser na relação transformadora com as pessoas que nos rodeiam.
Que bom é quando as pessoas nos tocam, nos incomodam, quebrando barreiras/preconceitos e nos obrigam a sair de nós próprios. Bom caminho.
Fica bem. Como se diz em África e que para mim traduz tudo: "Estamos juntas".


 

Que sociedade multicultural?

In ROSA, Susana; 2001; Escalada para a Inclusão, Olhar sociológico sobre a intervenção de um actor local no combate à exclusão social juvenil, Dissertação de Licenciatura em Sociologia, ISCTE, pp.93-102

Os movimentos migratórios são uma das dinâmicas mais significativas no processo de construção da modernidade. Num processo de globalização originador de sociedades multiculturais, a complexidade da dimensão cultural é tanto mais discutida quanto são confrontados movimentos, aparentemente opostos, de convergência e de afirmação de culturas.
Politicamente, o movimento migratório veio trazer grandes constrangimentos aos países de acolhimento, face aos direitos a reconhecer aos cidadãos de países terceiros. A questão é central para o futuro das sociedades de acolhimento, as sociedades europeias. Os fortes contigentes de imigrantes em questão fazem antever a dimensão do desafio, que se impõe, de uma construção social que coordene as múltiplas culturas em interacção.
Por um lado, o contacto próximo entre culturas leva-as a assimilar certas características entre si, num processo de aculturação. Por outro, factores como uma eventual descaracterização ou a dificuldade de, anteriormente, terem sido reconhecidas, leva à afirmação de culturas próprias (Costa, 1998, 72-5). Este movimento, de afirmação da personalidade colectiva é o que coloca mais problemas à construção de uma sociedade multicultural, na medida em que há que questionar o que se entende por integração cultural, numa sociedade em que os não naturais nem sempre estão em minoria. Integrar a maioria imigrante na cultura da minoria local, abandonando a sua cultura de origem?
Hoje em dia esta noção já não parece desejável. Assim, antevê-se para a Europa um grande desafio a médio prazo que será por que definição de sociedade optar. Reconhecida a sua condição de sociedade multicultural, dever-se-à constituir uma cultura-síntese, em que o núcleo essencial de cada um esteja perfeitamente estabelecido, sem se fechar nem descaracterizar, inscrevendo-se numa sociedade pluricultural, que permita um diálogo de culturas, em vez de repressão de umas sobre as outras.

O sistema educativo
A escola é uma área em que o debate sobre a questão da multiculturalidade é particularmente relevante, na medida em que uma estruturação dos conteúdos pedagógicos mais próxima da realidade dos alunos é um ponto de partida de um maior sucesso escolar.
Sendo o abandono escolar maioritariamente relacionado com o meio sociofamiliar e com a organização interna do sistema educativo, este fenómeno “surge como um desafio múltiplo: às políticas sociais que devem continuamente mostrar a sua necessidade e justiça; à escola, que se deve organizar e evoluir sem excluir jovens de culturas não letradas; às comunidades que precisam das competências adquiridas na escola para se desenvolverem economicamente e manterem a sua identidade cultural e social” (Benavente e outros, 1994, 132).

Delineamentos para uma igualdade de “sucesso” no ensino
A escola, como estrutura massificada, organizada segundo um modelo inicial de educação para elites, encontra-se hoje desajustada face à realidade, revelando padrões obsoletos de ensino, geradores de rupturas culturais nas classes menos escolarizadas. “De modo geral, o sistema educativo reproduz as desigualdades sociais, aproveitando em medida muito escassa a imensa potencialidade que, em princípio, tem de quebrar o círculo da pobreza. Para tanto seria preciso uma reforma profunda da escola, designadamente na filosofia educativa, nos métodos pedagógicos, nos conteúdos e na formação dos docentes.” (Costa, 1998, 50).
É necessário também que a escola, numa sociedade global, saiba lidar com a diversidade cultural dos seus alunos e possa adequar os seus conteúdos e práticas em conformidade com esta. Os modelos pedagógicos, a estrutura organizacional e a curricular têm de ser reestruturados face ao aumento dos fluxos de população, consequência da globalização da economia, de forma a não ser mais uma instância decisiva de acentuação das situações de desigualdade e exclusão social.
A multiculturalidade está em discussão, sendo entendida como a valorização da diversidade das culturas pelas escolas, tendo em vista o desenvolvimento nos grupos minoritários e maioritários da compreensão das diferenças culturais e da capacidade de comunicar entre pessoas de culturas diferentes. Para Machado, o problema principal é que a ideia de multiculturalidade “pode facilmente ser dominada por uma concepção essencialista das identidades, de forma que cada criança pertence a um e um só universo de referências- a «sua» minoria.” (Machado, 1994, 125) A construção das identidades não é um processo de pertenças simples e definitivas, mas um processo relacional, mutável, processo esse que deverá ser o alvo dos projectos de educação multicultural.
As participações no sentido de integrar elementos de outras culturas na reforma do sistema educativo português, surgem no âmbito da construção do Projecto Educativo de escolas e estabelecimentos de parcerias efectivadoras da ideia de uma comunidade educativa, apelando à participação da comunidade local na gestão dos estabelecimentos de ensino.
As especificidades culturais que se afirmam na tensão entre o nível global e o local são novos elementos a ter em conta. A resposta do local, enquanto nível de análise e de intervenção, tem ganho relevo num movimento de confronto face à supremacia da globalização.

Bibliografia de referência
BENAVENTE, Ana, e outros;1994, Renunciar à escola – o abandono escolar no Ensino Básico, Lisboa, Fim de Século Edições;
COSTA, Alfredo Bruto da;1998, Exclusões Sociais, Lisboa, Fundação Mário Soares, Gradiva Publicações;
MACHADO, Fernando Luís;1994, “Luso-africanos em Portugal: nas margens da etnicidade”, Sociologia- Problemas e Práticas, Lisboa, CIES, nº16, pp.111-134.

 

Politicamente correcto ou intolerante?

Sobre a progressão do obscurantismo na Europa... Ou sobre o desrespeito e intolerância em relação à diversidade cultural? Ou ainda sobre o quanto estamos dependentes do petróleo?

O Cerco, Miguel Sousa Tavares
(...) Agora vêm-nos com esta história dos «cartoons» sobre Maomé saídos num jornal dinamarquês. Ao princípio a coisa não teve qualquer importância: um «fait-divers» na vida da liberdade de imprensa num país democrático. Mas assim que o incidente foi crescendo e que os grandes exportadores de petróleo, com a Arábia Saudita à cabeça, começaram a exigir desculpas de Estado e a ameaçar com represálias ao comércio e às relações económicas e diplomáticas, as opiniões públicas assustaram-se, os governantes europeus meteram a viola da liberdade de imprensa ao saco e a srª comissária europeia para os Direitos Humanos(!) anunciou um inquérito para apurar eventuais sintomas de «racismo» ou de «intolerância religiosa» nos «cartoons» profanos.
Eis aonde se chega na estrada do politicamente correcto: a intolerância religiosa não é de quem quer proibir os «cartoons», mas de quem os publica! A Dinamarca não tem petróleo, mas é um dos países mais civilizados do mundo: tem um verdadeiro Estado Social, uma sociedade aberta que pratica a igualdade de direitos a todos os níveis, respeita todas as crenças, protege todas as minorias, defende o cidadão contra os abusos do Estado e a liberdade contra os poderosos, socorre os doentes e os velhos, ajuda os desfavorecidos, acolhe os exilados, repudia as mordomias do poder, cobra impostos a todos os ricos, sem excepção, e distribui pelos pobres.
A ArábiaSaudita tem petróleo e pouco mais: é um país onde as mulheres estão excluídas dos direitos, onde a lei e o Estado se confundem com a religião, onde uma oligarquia corrupta e ostentatória divide entre si o grosso das receitas do petróleo, onde uma polícia de costumes varre as ruas em busca de sinais de «imoralidade» privada, onde os condenados são enforcados em praça pública, os ladrões decepados e as «adúlteras» apedrejadas em nome de um código moral escrito há quase seiscentos anos.
E a Dinamarca tem de pedir desculpas à Arábia Saudita por ser como é e por acreditar nos valores em que acredita?
Seguramente que vai haver quem pegue neste meu texto e o deite ao lixo, indignado. É o seu direito. Mas censurá-lo previamente, como alguns seguramente gostariam, isso não. É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu - graças a Deus. Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar a ser a sociedade da liberdade e da tolerância.

 

Sistemas de Integração de Imigrantes

Existe de alguma forma um percurso não linear que tem vindo a ser desenvolvido pelos diferentes países em relação à gestão da diversidade. De grosso modo, podemos salientar quatro modelos:
Segregacionismo- na história da África da Sul por o ter levado ao extremo, pretendia instituir espaços limitados para as diferentes comunidades. É um modelo desfazado no tempo mas associado a países com profundas divisões internas: Irlanda (entre católicos e protestantes), Bélgica (francófonos e flamengos), Alemanha;
Assimilacionismo- O estrangeiro só tem plenos direitos quando for um igual, abdicando da sua cultura de origem. Em países menos permeáveis à diferença, a questão deixa de se colocar só ao nível dos plenos direitos, para se tornar uma questão pública e compulsiva- o caso de alguns países árabes em relação à indumentária das mulheres (mesmo estrangeiras). No caso francês, pretende-se anular a manifestação das diferenças religiosas em espaços públicos. Este é laico e não permite qualquer expressão religiosa (mesmo a católica maioritária nesse país);
Multiculturalismo- Defende a convivência de diferentes culturas no mesmo espaço ainda que dentro dos seus registos próprios, bem delimitados. Há cristalização cultural e pouca interacção entre culturas. Passa-se em Inglaterra e Canadá e até há pouco tempo na Holanda. Há cerca de dois anos entrou em crise com o atentado terrorista em Espanha;
Interculturalidade- Núcleo fundamental de valores presentes na lei em que todos se respeitam. Para além das leis, há um conjunto de práticas próprias de cada cultura. Introduz a ausência de hierarquização entre as culturas de origem dos imigrantes e a do local. Defendida em Portugal.
Com os atentados terroristas dos últimos anos a ascensão de movimentos pouco tolerantes em relação à imigração e à relação que erradamente lhe fazem com o desemprego na Europa, ganhou outros contornos e muitos países reverteram as suas políticas de maior abertura e humanismo em relação à diversidade cultural. França, Áustria e Holanda têm defendido restrições ao reagrupamento familiar, anteriormente amplamente defendido. Hoje em dia, a Europa está entre "recuperar os valores e as atitudes que estiveram sempre na origem da sua grandeza através da história - a abertura ao mundo e aos outros, a capacidade de integrar pessoas e ideias, a convicção profunda nos seus próprios valores cívicos e políticos" (Teresa de Sousa, Público, 1/11/2005) e uma nova Era das Trevas.

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