segunda-feira, julho 31, 2006

 

Interculturalidade, Isabel Guerra

GUERRA, Isabel; A Interculturalidade: Uma forma de Comunicação Paradoxal in CUNHA, Pedro d’Orey, 1997, Educação em Debate, Universidade Católica Editora, Lisboa

Introdução
Porque falamos de multiculturalidade?
...dois fenómenos fundamentais estão a modificar as relações entre as pessoas e as comunidades humanas: o desenvolvimento das novas tecnologias e os movimentos migratórios. A internacionalização das economias e das culturas apoiadas pelas transformações técnicas das formas de comunicação e os fenómenos migratórios geram, cada vez mais, um mundo de referências múltiplas.

Devido ao contexto histórico e às actuais conjunturas, o intercultural está longe de ser um terreno neutro. Ele suscita frequentemente um discurso de tipo ideológico, inspirado por uma ética humanista que defende um ideal de diálogo, de respeito pela diferença, de compreensão mútua. Este ideal pode originar uma larga adesão mas é de pouco auxílio na compreensão dos problemas que coloca a comunicação intercultural e os fenómenos psicosociológicos que a ela implica. (...) A questão que se coloca é que esses princípios de convivência social, sendo legítimos, não são suficientes para lidar com a complexidade do problema quando a situação de conflito se apresenta.

1. Interacção Cultural: A comunicação paradoxal à procura de novos processos
1.1 Porque é que somos diferentes?
...grosso modo, temos duas concepções de cultura. Uma concepção restrita da cultura que identifica cultura com saber transmitido pelas instituições e valorizado por um grupo particular (“a cultura dominante”) e uma concepção extensiva que entende a cultura como um conjunto de produções especificamente humanas.

1.2 Para que serve a cultura?
A cultura está ligada a um modo particular de apropriação do mundo, o mundo simbólico que estabelece relações, nem sempre coincidentes, com o processo de apropriação material dominado apenas pela lógica do trabalho. Neste sentido, uma teoria da cultura como universo partilhado de significação pressupõe uma teoria de interacção entre os homens. A cultura é, assim, um meio de comunicação e um elemento mediador das interacções concretas entre os Homens.

Em interacção com o seu grupo, o indivíduo é ensinado a pensar e agir de forma semelhante aos membros da sua comunidade e adquire assim, a sua “identidade cultural”. A identidade não é qualquer coisa que exista em si, ela é o fruto complexo das relações sociais sendo um processo em permanente construção. Não sendo definitiva, mas estando sempre em evolução, esta identidade cultural vai-se sentir dinamizada- por vezes, perturbada quando estabelece relações com outras identidades culturais.

1.3 Há ou não uma cultura universal?
Toda a comunicação entre diferentes identidades culturais obriga a que reconheça o outro, ao mesmo tempo, como semelhante e como diferente. Neste sentido a verdadeira comunicação intercultural é uma comunicação paradoxal.

Reconhecer o outro como diferente, é aceitar relativizar o meu próprio sistema de valores; é admitir que possa haver outras motivações, outras referências e outros hábitos; é evitar interpretar os comportamentos diferentes através das minhas concepções para tentar compreender o significado que eles se revestem em si próprios.

Porque existem conflitos no diálogo intercultural?
O “estrangeiro” obriga sempre à interrogação sobre o fundamento e o sentido das nossas identidades e filiações e obriga-nos a abandonar as certezas com que contruímos essa nossa identidade. Desorganizando o familiar e questionando a nossa identidade, o “estrangeiro” aparece como um intruso suscitando tanto mais ódio quanto mais diferenças, e portanto, questionamentos nos coloca.

...na sociedade actual, a identidade cultural não é apenas um processo de adesão e de significação a determinados modos de concepção do mundo, ela é também, um processo de oposição e de exclusão face a outras identidades e grupos.

3. A Pedagogia Intercultural: Um processo e não um objectivo
A pedagogia multicultural sofre das mesmas dificuldades epistemológicas, teóricas e práticas da interacção cultural da sociedade como um todo.

3.1 Há contradição entre uma escola “universalista” e uma escola “multicultural”?
...poderá dizer-se que, de uma certa forma, a crise da civilização ocidental traduziu-se pelo abandono de uma concepção universalista da cultura segundo a qual existiriam normas e valores humanos universais –aqueles que justamente a escola deveria transmitir- e o desenvolvimento de concepções relativistas da cultura traduzida na frase, “nós somos o que a cultura nos fez e nenhuma cultura pode reivindicar deter as prioridades das verdades universais”:

O dilema com que se confronta o educador, já referido, é que este, não podendo referir-se a normas e valores universais vê-se obrigado a tomar em consideração as normas e valores culturais que agem e interagem na sociedade. O educador é, portanto, levado a uma tomada de posição, se possível explícita, face a uma opção de vida socio-cultural.

É na tomada de consciência e na tentativa de ultrapassar este paradoxo –coexistência de elementos inconciliáveis/ manutenção de uma unidade- que residem as dificuldades de abordagem e de acção de uma pedagogia intercultural.

3.2 O que é que o professor precisa de saber?
(...) Mais do que conhecimentos de cariz cognitivo é fundamental ter consciência do grau de determinação cultural do nosso comportamento (...) A proposta de Hoopes (in Oueillet, 1991) vai no sentido de desenvolver nos professores a capacidade de análise dos seus modelos de percepção e estilos de comunicação, aumentar a capacidade de escuta resistindo à tentação de fazer juízos apressados. Mas, e sobretudo, é fundamental que o professor se aperceba das formas de intervenção dos seus preconceitos e postulados morais e valores e que “cultive a conscientização cultural”.

Pressupostos das actividades interculturais:
§ Devem inscrever-se num projecto pedagógico coerente e elaborado a longo termo;
§ É necessário evitar toda a segregação, mesmo positiva a descriminação oferece o inconveniente de exarcebar as diferenças, enquanto que o que se pretende é revelar as semelhanças e os pontos de contacto entre culturas
§ A presença pública de referências culturais positivas e diversas na Escola agrada a crianças e famílias

3.3 O que o professor não deve fazer?
Armadilhas frequentes na pedagogia intercultural:
Redução da realidade cultural dos alunos- a singularidade cultural é identificada com meia dúzia de estereótipos sem consistência nem articulação;
Interpretar sistematicamente os conflitos a partir do cultural esquecendo os factores psicológicos, sociológicos que contribuem para esses comportamentos. É de evitar cair em esquemas de interpretação lineares e deterministas que só agravam os estereótipos negativos;
Procurar resolver as dificuldades exclusivamente pelo conhecimento racional do outro. A pedagogia intercultural pretende entender uma situação de interacção complexa a partir das suas diferentes componentes mais do que entender o outro a partir de elementos culturais percebidos como absolutos e fora do contexto.

Conclusão:
A educação intercultural, um processo a continuar...A perspectiva INTER-cultural não se inscreve nem numa visão determinista nem numa visão relativista mas num nível mais complexo, da interrogação e da construção de uma didáctica intercultural. Não se trata de tentar construir um sistema de compreensão fechado e coerente – mas aceitar um questionamento permanente de pressupostos e de aquiridos, admitindo o desconhecido e o não-entendido como componentes de percursos de interacção ainda por descobrir.





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