domingo, abril 16, 2006
Que sociedade multicultural?
In ROSA, Susana; 2001; Escalada para a Inclusão, Olhar sociológico sobre a intervenção de um actor local no combate à exclusão social juvenil, Dissertação de Licenciatura em Sociologia, ISCTE, pp.93-102
Os movimentos migratórios são uma das dinâmicas mais significativas no processo de construção da modernidade. Num processo de globalização originador de sociedades multiculturais, a complexidade da dimensão cultural é tanto mais discutida quanto são confrontados movimentos, aparentemente opostos, de convergência e de afirmação de culturas.
Politicamente, o movimento migratório veio trazer grandes constrangimentos aos países de acolhimento, face aos direitos a reconhecer aos cidadãos de países terceiros. A questão é central para o futuro das sociedades de acolhimento, as sociedades europeias. Os fortes contigentes de imigrantes em questão fazem antever a dimensão do desafio, que se impõe, de uma construção social que coordene as múltiplas culturas em interacção.
Por um lado, o contacto próximo entre culturas leva-as a assimilar certas características entre si, num processo de aculturação. Por outro, factores como uma eventual descaracterização ou a dificuldade de, anteriormente, terem sido reconhecidas, leva à afirmação de culturas próprias (Costa, 1998, 72-5). Este movimento, de afirmação da personalidade colectiva é o que coloca mais problemas à construção de uma sociedade multicultural, na medida em que há que questionar o que se entende por integração cultural, numa sociedade em que os não naturais nem sempre estão em minoria. Integrar a maioria imigrante na cultura da minoria local, abandonando a sua cultura de origem?
Hoje em dia esta noção já não parece desejável. Assim, antevê-se para a Europa um grande desafio a médio prazo que será por que definição de sociedade optar. Reconhecida a sua condição de sociedade multicultural, dever-se-à constituir uma cultura-síntese, em que o núcleo essencial de cada um esteja perfeitamente estabelecido, sem se fechar nem descaracterizar, inscrevendo-se numa sociedade pluricultural, que permita um diálogo de culturas, em vez de repressão de umas sobre as outras.
O sistema educativo
A escola é uma área em que o debate sobre a questão da multiculturalidade é particularmente relevante, na medida em que uma estruturação dos conteúdos pedagógicos mais próxima da realidade dos alunos é um ponto de partida de um maior sucesso escolar.
Sendo o abandono escolar maioritariamente relacionado com o meio sociofamiliar e com a organização interna do sistema educativo, este fenómeno “surge como um desafio múltiplo: às políticas sociais que devem continuamente mostrar a sua necessidade e justiça; à escola, que se deve organizar e evoluir sem excluir jovens de culturas não letradas; às comunidades que precisam das competências adquiridas na escola para se desenvolverem economicamente e manterem a sua identidade cultural e social” (Benavente e outros, 1994, 132).
Delineamentos para uma igualdade de “sucesso” no ensino
A escola, como estrutura massificada, organizada segundo um modelo inicial de educação para elites, encontra-se hoje desajustada face à realidade, revelando padrões obsoletos de ensino, geradores de rupturas culturais nas classes menos escolarizadas. “De modo geral, o sistema educativo reproduz as desigualdades sociais, aproveitando em medida muito escassa a imensa potencialidade que, em princípio, tem de quebrar o círculo da pobreza. Para tanto seria preciso uma reforma profunda da escola, designadamente na filosofia educativa, nos métodos pedagógicos, nos conteúdos e na formação dos docentes.” (Costa, 1998, 50).
É necessário também que a escola, numa sociedade global, saiba lidar com a diversidade cultural dos seus alunos e possa adequar os seus conteúdos e práticas em conformidade com esta. Os modelos pedagógicos, a estrutura organizacional e a curricular têm de ser reestruturados face ao aumento dos fluxos de população, consequência da globalização da economia, de forma a não ser mais uma instância decisiva de acentuação das situações de desigualdade e exclusão social.
A multiculturalidade está em discussão, sendo entendida como a valorização da diversidade das culturas pelas escolas, tendo em vista o desenvolvimento nos grupos minoritários e maioritários da compreensão das diferenças culturais e da capacidade de comunicar entre pessoas de culturas diferentes. Para Machado, o problema principal é que a ideia de multiculturalidade “pode facilmente ser dominada por uma concepção essencialista das identidades, de forma que cada criança pertence a um e um só universo de referências- a «sua» minoria.” (Machado, 1994, 125) A construção das identidades não é um processo de pertenças simples e definitivas, mas um processo relacional, mutável, processo esse que deverá ser o alvo dos projectos de educação multicultural.
As participações no sentido de integrar elementos de outras culturas na reforma do sistema educativo português, surgem no âmbito da construção do Projecto Educativo de escolas e estabelecimentos de parcerias efectivadoras da ideia de uma comunidade educativa, apelando à participação da comunidade local na gestão dos estabelecimentos de ensino.
As especificidades culturais que se afirmam na tensão entre o nível global e o local são novos elementos a ter em conta. A resposta do local, enquanto nível de análise e de intervenção, tem ganho relevo num movimento de confronto face à supremacia da globalização.
Bibliografia de referência
BENAVENTE, Ana, e outros;1994, Renunciar à escola – o abandono escolar no Ensino Básico, Lisboa, Fim de Século Edições;
COSTA, Alfredo Bruto da;1998, Exclusões Sociais, Lisboa, Fundação Mário Soares, Gradiva Publicações;
MACHADO, Fernando Luís;1994, “Luso-africanos em Portugal: nas margens da etnicidade”, Sociologia- Problemas e Práticas, Lisboa, CIES, nº16, pp.111-134.
